Eu, que nem sou grande fã do Sagmeister, não deixei de ler esta frase e concordar entusiasticamente com ela. E, atenção, também me serve a carapuça.
“Complaining is stupid. Either act or forget.”
- Stefan Sagmeister

Eu, que nem sou grande fã do Sagmeister, não deixei de ler esta frase e concordar entusiasticamente com ela. E, atenção, também me serve a carapuça.
“Complaining is stupid. Either act or forget.”
- Stefan Sagmeister

“I am creativity. A free spirit. I am passion. Yearning. Sensuality. I am the sound of roaring laughter. I am taste. The feeling of sand beneath bare feat. I am movement. Vivid colors. I am the urge to paint on an empty canvas. I am boundless imagination. Art. Poetry. I sense. I feel. I am everything I wanted to be.”
(Já conhecia esta imagem – aliás, foi o meu wallpaper durante algum tempo – mas voltei a encontrá-la enquanto passeava pelo blog “Beijo na Boca”, que é fixe, fixe todos os dias.)
… vejo os teus olhos. Vejo o Mondego reflectido neles.
Ouço as conversas de quem passa lá em baixo. O que é que importa se a vizinha da rua de baixo está farta de estudantes? Eu estou farta de estudantes. Por mim, esta merda desta praxe acabava-se já aqui e agora. Nem sequer é a tradição académica que me faz gostar de Coimbra. O meu amor por Coimbra não está nos postais. O meu amor por ti dava um postal. De Coimbra. De Paris. De Florença. De toda a bela Itália. Da Europa. Do mundo.
Dos telhados da Alta vejo o mundo. Aquele que me foge dos pés quando não estás. Aquele que me parece tão pequeno para tantos planos. “Novos planos para fugir”, já cantava o Manel. Cantas para mim? Foges comigo? Para onde? Para sempre.

“Sou um terrestre que caminha de uma forma muito aérea, muito suspensa, à procura de qualquer coisa, sobretudo na música, que ainda não sabe muito bem o que é. E isso inquieta-me o espírito. Sempre. Vivo com esta inquietação vinte e quatro horas por dia”. – B.S.
Gosto de almas que se inquietam. Só não gosto que elas desapareceram cedo demais…
” ‘Cause I’m just a soul whose intentions are good
Oh lord, please don’t let me be misunderstood”
“E, sabes, Miguel? Isto irá. Aprenderemos finalmente, talvez não seja já para amanhã, mas aprenderemos. A fazer as coisas de outra maneira. A ser camaradas. A respeitar as diferenças. A juntar forças, mesmo. Tu, que nunca foste sectário, vais gostar de ver. Mas como eras taticista, vais ficar surpreendido.”
Há quinze dias a crónica não saiu. Não fui capaz de a escrever. Eu tinha sofrido uma grande perda e não quis receber uma avalanche de mensagens. Recebi apenas algumas. Uma delas era do Miguel Portas: “internado em Antuérpia”, dizia, desejava-me força naquele momento difícil. Nestas duas semanas, enviei-lhe duas mensagens, desejando-lhe força também, para os tratamentos. “Brigado”, respondeu ele, “isto irá”.
Hoje a crónica sai, não sei se em condições para ser lida, peço desculpa por isso. É 25 de abril, e o Miguel Portas morreu ontem. É duro. Daqui a uma semana será 1º de maio. O dia de anos do Miguel Portas, data que o enchia de vaidade. Isto é mais do que duro. É cruel.
Foi cruel morrer assim o Miguel Portas, tão dolorosamente. Mas ele não se zangou com a vida. Logo o Miguel, que tantas vezes na vida se zangou sem razão, não se zangou com a vida, mesmo quando teve toda a razão para isso. Mas ele só podia gostar muito da vida. Tanto que nunca acreditou que ela lhe pudesse fazer esta desfeita. Há mesmo pessoas em que o gostar muito da vida está na raiz de tudo.
Isto irá, Miguel. Hoje é 25 de abril. É dia de descer a Avenida da Liberdade. Vão lá muitos amigos, de cravo na mão, camaradas teus, namoradas tuas, gente com quem te zangaste, gente com quem te reconciliaste, gente com quem fizeste política, e jornalismo, e amizade, e com quem desfizeste também. Para qual das coisas tinhas mais talento? Também isso discutiremos ao descer a Avenida da Liberdade, mesmo os que não puderem descer a Avenida; lembraremos os jornais, e a política, e as amizades.
Isto irá. Daqui a uma semana é 1º de maio. Ser-te-á prestada homenagem, quando já estivermos mais repostos. Os teus amigos farão outra coisa: festejarão o teu aniversário. Mesmo aqueles que andaram à bulha contigo. Todos sentem a tua falta. Até de andar à bulha contigo. Falarão das coisas que fizeste, lembrarão como entraste na vida deles, e não esquecerão nada, das coisas mais importantes àquelas que não têm importância nenhuma. Como lhes arranjaste um emprego. Como o jornal foi à falência. Como fizeste um partido novo.
E, sabes, Miguel? Isto irá. Aprenderemos finalmente, talvez não seja já para amanhã, mas aprenderemos. A fazer as coisas de outra maneira. A ser camaradas. A respeitar as diferenças. A juntar forças, mesmo. Tu, que nunca foste sectário, vais gostar de ver. Mas como eras taticista, vais ficar surpreendido.
Isto irá, finalmente. Faremos deste um país melhor. Teremos de ser muito melhores para o conseguir fazer, é claro. Mas isto irá. As coisas estão difíceis agora. Mas um dia vamos reconstruir o que agora está sendo destruído. Nascerão as novas escolas, e teatros, e serão reconstruídos os prédios velhos.
E haverá mais. Haverá viagens, Miguel, em que se arrancará logo de madrugada. E piadas contadas em várias línguas, francês desenrascado, italiano macarrónico, inglês acabado de aprender, uma ou duas palavras em árabe. Isto irá. Hão de cair mais uns tantos muros, vais ver. E vai haver jogos de futebol contigo como guarda-redes. E vão aparecer uns jornais e umas revistas novas, com um pessoal novo, talentoso, que havemos de descobrir. Vamos ter umas boas ideias. E, tal como garantiste tanta vez, vamos dar a volta a isto. Vamos dar a volta a tudo. Nem sempre acreditei, é certo. Mas isto irá.
Miguel Portas (1958-2012)

“Tu andas sempre na corda bamba. Adoro isso. Se há coisa que a tua vida não deve ser é chata.”
Oh, you bet…
“If you find, you find yourself
against yourself
yeah maybe I fought
once thought I was sane
but all I wanna do is get off
and feel it for a minute”