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7 meses

Estamos quites.

Todos andam insatisfeitos, mas no fim o que as pessoas fazem é não se irem embora. Especialmente as pessoas que já foram abandonadas, como tu e o teu irmão. Quem passa pelo que vocês dois passaram dá grande valor à estabilidade. Provavelmente até demasiado. A coisa mais difícil do mundo é cortar as amarras da vida e partir. As pessoas fazem dez mil ajustamentos até ao comportamento mais patológico. Porque é que, emocionalmente, um homem do tipo dele está reciprocamente ligado a uma mulher do tipo dela? Pela razão de sempre: as suas fraquezas encaixam-se.
Casei Com Um Comunista, Philip Roth

“She’s a mess of gorgeous chaos.”

Bandolim

Enquanto espero pelo autocarro, no momento em que a cidade se deixa embalar pelo lusco-fusco, um rapaz toca bandolim. “My way” do Frank Sinatra. Num bandolim. Coimbra tem destas coisas. Combinações inesperadas que encaixam com uma naturalidade impossível de prever. E eu, que detesto surpresas, dou por mim confortável com a ideia de que a vida ainda agora começou a dar as suas voltas. A incerteza costumava comer-me as entranhas. Os planos falhados serviam-me de travesseiro noites a fio. Enchi garrafas de frustração até lhes perder a conta, que acabei por derramar, mais tarde ou mais cedo, a conta gotas ou de enxurrada. (Ainda tenho algumas, de reserva, em fermentação.) No entanto, e talvez porque é disto que é feito o amadurecimento, a ansiedade, sufocante e aflitiva, transformou-se em expectativa. “The best has yet to come.” Esperarei pacientemente (mas não passivamente). Nada está seguro e nada é definitivo.

“A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver.” Bertrand Russel

A minha parte

Não sou uma pessoa positiva, por natureza. Na verdade, tenho até uma ligeira inclinação para o drama, para temer e esperar o pior, para desanimar com alguma facilidade e para rasar os olhos de lágrimas por tudo e por nada. Há dias em que acho, sinceramente, que isto do karma é uma treta pegada e que quanto mais (te) deres, mais se aproveitarão de ti. Diz a minha mãe, e com razão, que tenho que ser mais tesa, mais directa, deixar-me de paninhos quentes e convencer-me de uma vez por todas que é impossível agradar a gregos e troianos. Era meio caminho andado para poupar o coração a alguns achaques. 

Para contrariar esta tendência, faço um exercício diário que me vai mantendo afastada do lado negro da força. Respiro fundo antes de dar uma resposta torta após ouvir algo que me desagrada ou impacienta, procuro desvalorizar comentários mesquinhos, só os tece quem está de mal com a vida, não alimento discussões onde existe surdez selectiva, passo tempo com as pessoas de quem gosto, leio bons livros, ouço boa música, vou ao teatro, pratico voluntariado, derreto-me todas as vezes que a Marie se enrola para dormir ao sol, acredito que para cada problema existe uma solução e que isso do chocolate engordar é um mito.

Posto isto, podem testar a minha paciência à vontade, o mais que pode acontecer é pôr-vos na minha lista “couldn’t care less”. Até lá, pratico o que apregoo. Esta é a minha parte. A minha vida. Tratem da vossa.

 

Tão bom!

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Lenço Enxuto

“Empresta-me os teus olhos uma vez
Que os meus não são de gente, apenas rapaz.
É só o tempo de me aperceber
Da visão que se turva para ser de mulher.

Empresta-me uma chávena de sal
E mostra-me a receita do caldo lacrimal.
É só o tempo de te convencer
Que nem precipitado consigo chover.

Não é um adágio que nos persegue,
Que um homem só não chora porque não consegue.

Empresta-me esse efeminado luto;
Ser masculino é ter-se o lenço enxuto.
É só o tempo de me maquilhar
De pranto transparente (a cor de mulher).

Não nasci pedra, nasci rapaz
Que um homem só não chora por não ser capaz.

Os homens fazem fogo, com dois paus eles fazem fogo.
Por troca ensino-te a queimar.

Tu és corrente e eu finjo mar
Que um homem, para que chore, não pode chorar.”